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16 Abr 2012

Só – e bem acompanhado

A tradição ocidental não deixa dúvida: a solidão é a pior das experiências. A Bíblia diz que Adão, sozinho, foi incapaz de usufruir o paraíso. Pediu a Deus que lhe desse uma companheira. Na Grécia Clássica, 500 anos antes de Cristo, a punição reservada aos políticos que conspiravam contra a república era a “morte em vida”, o exílio, que os atenienses chamavam de ostracismo. Com base nessa percepção, criou-se, ao longo dos séculos, uma imagem profundamente negativa das pessoas que viviam sozinhas. Era o ermitão atormentado, geralmente louco, de quem gente normal tinha medo de se aproximar. Ou o misantropo, que se refugiava na solidão por desconfiança e medo daqueles que o cercavam. Até recentemente, pessoas normais, em quaisquer circunstâncias, preferiam morar em grupo – na família, no clã, entre os amigos – a viver apenas com elas mesmas. Jean-Paul Sartre, o filósofo francês, sentenciou que “o inferno são os outros”, mas, para a maioria, o sofrimento supremo costumava ser a ausência dos outros.

 

Por várias razões, isso mudou.

 

Quando fecha a porta de sua casa, a arquiteta Camila Klein entra numa espécie de santuário. Liga o som, acende os abajures, deita-se para ler e, assim, recarrega devagar as baterias. Ela tem 32 anos e mora sozinha desde que deixou a família em São Sebastião do Caí, no interior do Rio Grande do Sul, para tentar carreira em São Paulo, seis anos atrás. Por alguns meses, chegou a compartilhar um apartamento com uma amiga e, depois, com o marido. Durou pouco. Hoje, está divorciada, é dona de um escritório com 20 funcionários e diz que, morando sozinha, aprendeu a olhar para dentro e a entender seus sentimentos, necessidades e propósitos. “Hoje, cuido mais de mim, reflito sobre o que me faz bem e seleciono melhor as pessoas com quem quero conviver”, diz Camila.

 

Essa pausa solitária – uma espécie de contraponto à rotina estressante e hipersocial da vida urbana – é um dos motivos que têm levado milhões de pessoas, no mundo inteiro, a optar por viver sós. Ao contrário do estigma do passado, que associava isso a alguma espécie de incapacidade social, agora se trata de uma escolha soberana, determinada por desejos ou por circunstâncias que se tornam cada vez mais comuns. Viver em sua própria casa sem a presença compulsória dos outros converteu-se numa espécie de prêmio à individualidade que apenas alguns podem se dar, mas muitos almejam. “Morar sozinho, livre das demandas dos outros, permite dar mais atenção a si mesmo, fazer o que quer, na hora e do jeito que achar melhor”, afirma Eric Klinenberg, professor de sociologia da Universidade Nova York. “É um estilo de vida que nos ajuda a descobrir mais sobre nós mesmos e a apreciar o prazer de uma boa companhia. Paradoxalmente, morar sozinho pode ser exatamente do que uma pessoa precisa para se conectar consigo mesma e com os outros.”


Klinenberg investigou as motivações dos adultos que vivem sozinhos em diferentes países – foram 300 entrevistas, com pessoas de idades e classes sociais diferentes. Com base nisso e numa revisão da literatura acadêmica sobre o assunto, escreveu o livroGoing solo: the extraordinary rise and surprising appeal of living alone (Editora Penguin, US$ 18, disponível na Amazon), ainda inédito no Brasil. O título aproximado em português seria Vida solo: o extraordinário crescimento e o apelo surpreendente de viver só. Em entrevista a ÉPOCA, Klinenberg disse que as pessoas estão encontrando equilíbrio e felicidade na solidão e isso representa uma transformação radical em relação ao passado. Nas sociedades modernas, diz ele, o culto ao individualismo encoraja as pessoas a morar sozinhas, e a riqueza econômica torna possível essa experiência – algo que outros profissionais já perceberam, inclusive no Brasil. “Morar sozinho é sinal de status, não uma declaração de rejeição”, afirma Sérgio Lage Carvalho, sociólogo da Universidade de São Paulo, autor de uma tese sobre solidão e modernidade. Ana Bock, professora de psicologia social da PUC de São Paulo, também registrou a mudança. “Agora, as pessoas que vivem sozinhas são vistas como bem-sucedidas, responsáveis e descoladas”, diz ela.

 

Klinenberg classifica os moradores solitários em quatro tipos básicos:

 

· Jovens em fase de “adultescência” 


Eles já são grandinhos o suficiente para morar na casa da família, mas ainda se consideram jovens demais para pensar em casamento. Querem cuidar do próprio nariz e pensar em seus objetivos de vida. Não se sentem solitários, mas donos de um espaço prazerosamente livre para desfrutar o amadurecimento pessoal e profissional. Trabalham muito, ficam pouco em casa e encontram amigos com frequência. Mas sabem que essa é uma fase transitória.

 

· Solteiro por convicção 


Adora fazer o que quer, quando quer, como quer. Não gosta de abrir mão das próprias vontades e manias para se adequar às dos outros, sejam eles filhos, marido/mulher ou companheiros de apartamento. Mas não são antissociais. Pelo contrário: adoram ir a eventos, curtir a cidade, participar das redes sociais na internet. E, sobretudo, receber. Acreditam que a solidão traz autoconhecimento e valorizam o tempo em que estão acompanhados.

 

· Divorciado bem resolvido 


Diz que é possível se sentir mais sozinho num casamento falido do que num apartamento vazio. Não quer mais o desgaste da convivência. Seu estoque de tolerância sob o mesmo teto acabou. Sua ideia é usufruir apenas a parte gostosa dos próximos namoros, com limites territoriais bem definidos. Receia que seu espaço e sua independência sejam tolhidos pelo outro.



· Viúvo independente 


Na maior parte dos casos, são mulheres que sobrevivem a seus maridos. Elas não aceitam morar na casa dos filhos, batem o pé para preservar a autonomia conquistada. Não querem cuidar dos netos ou de tarefas domésticas. Adoram ser voluntárias em projetos beneficentes, passear com as amigas e se sentir produtivas. A relação social se amplia para além da família. Vizinhos e a comunidade atuam como apoio para que essa idosa continue independente.   

 

No Brasil, ainda estamos aprendendo a viver sem dividir a cozinha e o banheiro. Apenas 12,8% dos brasileiros moram sozinhos, contra 28% nos Estados Unidos e 47% na Suécia. Os dados, porém, sugerem que o fenômeno é crescente e irreversível. No ano passado, pela primeira vez na história do Brasil, o número de “domicílios unipessoais” ultrapassou o de famílias com cinco integrantes. De acordo com o censo de 2010, são quase 7 milhões de pessoas (na maioria mulheres) que vivem sozinhas – um salto de 30% em relação à década passada e três vezes mais que 1991 (leia o quadro abaixo). O boom dos domicílios com apenas um morador começou há pouco mais de dez anos, com o crescimento econômico do país e o aumento no grau de instrução. “Essas duas tendências aceleraram o movimento migratório para os centros urbanos”, afirma Jefferson Mariano, analista socioeconômico do IBGE. Segundo ele, há indícios de que a tendência a morar só seja permanente.

 

Os arquitetos reunidos num grupo chamado SuperLimão atendem clientes em busca de soluções para moradias com poucos metros quadrados. Os pedidos mais recorrentes são painéis que isolam ou integram ambientes, além de móveis flexíveis (uma mesa de jantar com rodinhas pode virar um bufê encostado na parede). “As pessoas que moram sozinhas adoram receber amigos em casa”, afirma o sócio do escritório, Thiago Rodrigues. Ele diz que o mercado imobiliário deveria ser mais agressivo para acompanhar essas mudanças. Sugere que se troque o (normalmente) ocioso salão de festas por um lounge, parecido com um lobby de hotel, onde os moradores sozinhos possam receber amigos como se estivessem na sala da casa. Há base demográfica para esse tipo de sugestão: um estudo coordenado por Duane Alwin e Philip Converse, da Universidade de Michigan, concluiu que aqueles que moram sozinhos têm uma vida social mais ativa, para contrabalançar a casa vazia.

 

A farmacêutica goiana Lúcia Carvalho, de 60 anos, está aí para provar. Duas vezes divorciada e com filhas casadas, ela poderia ser uma daquelas sogras de caricatura que fincam raízes na casa da prole. Em vez disso, Lúcia mora sozinha, virou síndica de seu condomínio, inscreveu-se num curso de fotografia, associou-se a um grupo de dança de salão com três encontros semanais e faz viagens ao exterior com os amigos. O último namorado forçou a barra para morarem juntos, e a fila andou. “Já gastei minha cota de paciência para conviver”, diz Lúcia. “É gostoso ter um companheiro, mas não vale a pena abrir mão de minha independência.”

 

Klinenberg afirma que quatro acontecimentos (que ele chama de revoluções) ajudam a explicar a tendência global a morar sozinho: (1) a independência da mulher e sua presença no mercado de trabalho, (2) a melhoria das comunicações, (3) a onda migratória para os centros urbanos e, finalmente, (4) o aumento da longevidade. Desses, a entrada das mulheres no mercado de trabalho e a longevidade são os mais marcantes.

 

Com independência financeira, as mulheres passaram a dedicar mais tempo aos estudos e ao trabalho. Adiaram o casamento e a maternidade – ou até desistiram deles. Desde 1960, cresceu o número de divórcios e caiu a taxa de natalidade. A pílula anticoncepcional também deu mais liberdade às mulheres jovens, ao mesmo tempo que empurrou as curvas de fertilidade para baixo. Isso tudo se reflete na escolha cada vez mais comum de morar sozinha. Klinenberg diz que os jovens ganharam impulso para sair da casa dos pais com a onda libertária dos anos 1970. Assumir responsabilidades e ter seu espaço particular passou a ser o marco da transição para o mundo adulto. Essa mudança de costumes, somada à prosperidade brasileira dos últimos anos, faz com que, gradualmente, comece a ser malvista por aqui a opção de viver sob as asas dos pais (ou em clima de república universitária) depois de certa idade.

 

Além da revolução feminina e da onda jovem de sair de casa, o outro fator estatístico que ampara o crescimento das moradias de uma alma só é a longevidade. Em um século, o mundo ganhou 30 anos a mais na expectativa de vida média. A grande maioria das mulheres sobrevive aos maridos e não aceita perder a autonomia. As pesquisas mostram que idosos que vivem sozinhos são mais felizes e satisfeitos que aqueles obrigados a se mudar para a casa de um parente ou viver num asilo. A empresária Maria Fernanda Salles ilustra essa tendência. Ela tem 83 anos e ficou viúva 15 anos atrás. Recusou todos os convites da filha para que morassem juntas. Maria Fernanda dirige uma confecção e uma lavanderia para roupas de cama, mesa e banho – e adora o sossego de sua própria casa. “Então, para que largar o meu cantinho?”, diz ela.

 

Ao longo das 288 páginas de seu livro, Klinenberg faz a mesma pergunta retórica – e chega, repetidamente, à conclusão de que não é o caso de voltar atrás. Ele observa que morar sozinho dá tempo e espaço para apreciar a companhia dos outros. O encontro com familiares e amigos ganha outra dimensão porque tem hora para acabar. Quando as visitas saem, é hora de colocar um pijama velho, retomar o livro ou ver um filme sem interrupções. Felipe, Camila, Lúcia e Maria Fernanda – cujos depoimentos ilustram esta reportagem – sentem falta de alguém em casa em situações específicas, como a hora de fazer as tarefas domésticas ou quando acordam doentes e gostariam de receber um mimo. Mas são momentos de exceção. Em geral, quando apagam as luzes de casa estão tranquilos com sua escolha. Ela mostra que a sociedade está se organizando de novas formas. Isso não representa a dissolução da família ou o triunfo de um modo egoísta de viver. As pessoas estão apenas usufruindo as possibilidades abertas pela liberdade e pela prosperidade. “Optar por morar sozinho é uma conquista coletiva”, diz Klinenberg. “Viver sozinho não tem nada a ver com a decomposição da vida coletiva e o fim dos compromissos sociais. Estar só nos faz pensar em como podemos viver melhor juntos. Essa não é uma tendência transitória. As nações que perceberam isso antes estarão preparadas para as necessidades de seus cidadãos.”

 

 

Fonte: Época

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