

No início da década de 80, o Brasil, envergado pelo extraordinário aumento do custo de sua dívida externa (conseqüência da forte puxada dos juros promovida pelo Federal Reserve americano), entrou em uma longa trajetória de crise e passou a conviver com inflação em patamares elevados e com baixo crescimento econômico, relegando seus ideais de crescimento, a partir daí, a um segundo plano.
Durante décadas, o nível de investimento do setor público foi reduzido a uma fração do que seria necessário para minimamente manter a infraestrutura do País em condições de uso, fazendo com que os brasileiros se habituassem a um baixo nível de serviço das concessionárias de serviços públicos (transportes, energia, telecomunicações, entre outros).
Tal situação moldou a forma de pensar e de agir das empresas brasileiras; as quais, lidando com um cenário econômico difícil e com acesso restrito ao mercado de capitais, privilegiaram a flexibilidade, a visão de curto prazo e a postergação de investimentos estruturantes como sua linha de atuação básica. Em circunstâncias onde, aplicar ou não os recursos do caixa em um determinado dia, poderia representar de 2% ou 3% de diferença no resultado das empresas, a visão financeira e de controle se sobrepôs à da excelência operacional e da expansão dos negócios.
Ainda que tal estratégia tenha sido defensável, considerando a pouca segurança que o cenário econômico proporcionava, sabe-se que “o uso do cachimbo deixa a boca torta” e, mesmo que o Brasil tenha entrado no século XXI, em condições macroeconômicas bastante diversas (dívida externa equacionada, inflação debelada, mecanismos de controle orçamentário mais robustos), os resquícios desse período sobre a cultura das empresas parecem difíceis de serem abandonados.
Particularmente no varejo, que, nos últimos anos, tem experimentado taxas de crescimento em suas vendas quase que assombrosas (considerando o nível médio de crescimento da economia nos últimos 30 anos); essa necessidade de alterar o modelo mental mostra-se mais urgente.
O setor sempre se caracterizou por uma verdadeira “vocação” de controlar despesas e de minimizar investimentos, que não aqueles voltados à abertura de novas lojas (e, mesmo assim, sempre que possível, compartilhando tais investimentos com seus fornecedores).
Esse tipo de filosofia tende a fortalecer os membros em detrimento do corpo e é nos momentos de forte expansão da demanda que as contradições do modelo mais se tornam visíveis, uma vez que a “infraestrutura” das empresas mais é solicitada.
Poucas empresas no segmento de varejo teriam dotado suas áreas de logística e de Tecnologia de Informação com “reservas de energia” suficientes para lidar com a evolução súbita da demanda. Aquelas que não o fizeram precisam conter a avidez do consumidor por meio de uma dose imensa de sacrifícios e de improvisos; muitos deles feitos à custa de uma total absorção do quadro diretivo dessas empresas no operacional, agindo como bombeiros, tentando apagar toda a sorte de incêndios que surge quando se opera acima do limite.
Quando o incêndio termina e se realiza a operação de rescaldo, invariavelmente, se verifica que as decisões tomadas no calor das circunstâncias, para tentar não desperdiçar as oportunidades do bom momento econômico, custaram caro e, muitas vezes, “cobraram em dobro” as economias obtidas quando da decisão de postergar determinados investimentos. Adicionalmente, a imersão no operacional também implicou em deixar de se observar a dinâmica de alguns dos concorrentes e, pior, de avaliar mais serenamente alguns sinais de descontentamento dos seus clientes.
Ainda que tal descrição possa parecer uma fábula, a observação do atual momento de muitas empresas de varejo revela que, como toda fábula, ela tem um fundo de verdade; e, mais do que isso, possui uma lição moral importante e que convida à reflexão das empresas que acreditam que poderão esperar para primeiro crescer e então investir.
A lógica do capitalismo pressupõe obter lucro por meio de investimento e, para se investir dotando as empresas de uma margem de manobra adequada para lidar com os naturais imprevistos, exige-se delas planejamento com horizontes mais largos; abandonando, portanto, crenças por muito tempo arraigadas.
Alexandre Cassiano Horta (horta@gsmd.com.br), sócio sênior da GS&MD – Gouvêa de Souza.